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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Livro Um - Pesado

Nunca amanhecia, o dia nunca chegava. O tempo não passava, ali não existia tempo para passar. Logo após o primeiro dia, pensei em fugir, pensei em escapar. Mas ao final do dia já existiam coisas novas.
Dessa vez uma corda subiu de todo aquele lodo no chão. Numa ponta um laço para me enforcar, eu sabia, e do outro lado uma pedra amarrada, uma pedra enorme. Como tudo e nada fazia sentido algum, podia-se entender tudo. Tudo era contraditório, invertido e esquisito, como meu ultimo dia que tinha evidentemente durado mais de apenas um dia, mesmo não sabendo as horas, sabia quando era dia, quando era noite, quando amanhecia. O problema é que tudo sempre continuava cinza.
A corda com forças próprias se enrolou no meu pescoço, eu tentei lutar, tentei fugir, mas cai e ela me arrastou para o centro do quarto. Percebi que fiquei cheio de lama com essa pequena briga que tive com uma corda. A pedra pairou por cima da minha cabeça por alguns segundos, logo ela desceu, mas não me acertou, acertou o chão ao meu lado e começou a afundar. Tão logo comecei a me sufocar, lutei para tirar a corda do meu pescoço, mas ela estava muito bem apertada. Parecia que a pedra do outro lado pesava uma tonelada. E eu estava ali me sufocando, quase me afundando no meio de toda aquela lama cinzenta, mas sem me afundar realmente. Fiquei assim por muito tempo, quando o peso da pedra começou a parecer mais aceitável. Foi então que eu vi o lodo ao meu redor se juntando em cima de mim e criando forma, tentei gritar, mas a voz não saia.
Logo tinham dois corvos muito barulhentos em cima de meus ombros. E eles davam risadas e gritavam feito loucos. Quando pararam um deles olhou em meus olhos e começou a falar "Seu Deus não pode mais ouvir você, aqui você não pode chamar por Ele, pois nós somos os Deuses deste mundo e você pertence a nós".
Logo que um falava, o outro completava "você foi condenado a ficar aqui pra sempre, graças a seu pai, mas ele não fez isso sozinho".
Eles começaram a conversar e falar sobre mil coisas. Me contaram sobre como eu trouxe a destruição há um dos reinos da terra, ao sétimo reino especificamente. Me contaram a história de uma jovem chamada Rebeca que eu torturei, estuprei e gerei um filho, este se tornou uma semente destruidora para toda a terra. A cada acusação a minha mente via algo que faria, nunca fiz, mas vou fazer. Não sabia de que lugar eram aquelas imagens, mas sentia que eu tinha vivido aquilo. Sabia que aquilo tinha sido eu quem fez. Foi quando a pedra começou a puxar mais meu pescoço, estrangular mais a minha garganta. Aquelas aves já estavam irritando, então tentei matá-las, mas elas foram mais rápidas e voaram para cima, fugindo de minhas mãos. Vingativas, elas voltaram e com um golpe certeiro cada uma acertou um dos meus olhos, depois sentaram de novo em meu ombro e deram a sugestão uma a outra de comer meus olhos. Elas começaram a bicar meu rosto enquanto cantavam "ninguém gosta de você, todos te abandonaram, estão todos lá fora, sem você, se divertindo". Fiquei cego e tentei agarra-las de novo enquanto era estrangulado cada vez mais. Mas dessa vez minhas mãos não conseguiam tocá-las, eu as sentia comendo meus olhos, sentadas nos meus ombros, mas não podia tocá-las.
Percebi que as coisas estavam cada vez piores, pois elas não cansavam de cantar a mesma música.
"ninguém gosta de você, todos te abandonaram, estão todos lá fora, sem você, se divertindo"
A corda parecia estar sendo puxada por um trator, querendo arrebentar meu pesco. Os corvos não cansavam de comer meus olhos. A dor era imensa, indescritível.
Tudo que eu queria era o que eu não podia, sair dali. E eu sabia que tinha culpa de estar ali. E quanto mais eu entendia minha culpa, mais eu era estrangulado.