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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Livro Um - Frio

Frio! Era assim que eu me sentia.
Abri meus olhos e vi que estava em meu quarto, encostado na parede. Estava frio. Meus pés descalços estavam cheios de lodo e eu estava sozinho, mais do que tudo, eu me sentia sozinho. Me sentia sozinho em um mundo sem novidade, um mundo sem almas vivas. O quarto era cinza, tudo era cinza. Cobertas cinzas, paredes cinzas, livros sem nomes cinzas. Nenhuma janela, apenas paredes e uma porta, uma porta cinza. Nenhuma mudança de tom, apenas o mesmo cinza em todos os lugares.
Eu não me sentia bem, o cinza não me fazia bem. O frio não me fazia bem. Meu pé afundando naquele lodo, também cinza, fazia eu me sentir mal.
Olhei para meu pulso, tinham pequenas marcas vermelhas parecendo ter sido feita em caneta, esfreguei e elas não saíram. Resolvi sair daquele quarto, que se parecia tanto com o meu. Quando cheguei a porta, uma figura masculina aparece de repente bloqueando meu caminho e perguntando:
-- Onde você pensa que vai, pivete? Você não vai sair daqui. Não antes de ouvir a verdade.
Nesse momento ele me empurrou para trás com tanta força que bate as costas na parede do outro lado e me afundei na lama, me sujando todo. E ele começou a jorrar insultos, por vezes eu via sua língua sibilar como uma cobra, mas logo parecia estar normal de novo. Mas as palavras eram pesadas demais para mim. Logo elas começaram a deixar de ser apenas insultos, mas começaram a me cortar como se fossem mil facas, eu sentia a dor na pele, eu sentia algo tentando dividir meus ossos dos músculos e isso doía. Nem percebi quando estava de joelhos tentando tampar o som das palavras com as mãos nos ouvidos e gritando de tanta dor, insuportável dor. Ele mandou eu tirar as mãos do ouvido, mas não deu tempo de obedecer, antes mesmo que eu pudesse me mover, minhas mãos se congelaram e caíram na minha frente.
Me sentia sozinho, perdido, devastado e sem mãos, não conseguia fazer nada. A dor era tão forte, mais forte do que eu podia suportar. Mais forte do que eu imaginei que podia existir e o sentimento de solidão era devastador. Eu sabia de alguma forma que ali ninguém mais iria vir para me socorrer, eu iria continuar a ouvir mil acusações, mil insultos, duas mil acusações, dois mil insultos. O número apenas aumentava.
O dia não acabava.
Eu já não podia me mover mais. Mas ele ainda não tinha acabado. Ainda sentia todas as dores, que só iam aumentando, ainda sentia o frio, que parecia entrar como pedras de gelo em meus pulmões. Comecei a questionar como eu ainda estava vivo, como ainda não tinha me afogado naquele lodo todo que parecia cada vez mais úmido, fundo e frio. Eu simplesmente continuava ali sofrendo e agoniando com... o que era aquilo? Eu não sabia o que era, não sabia dar um nome, não sabia, não tinha ideia, eu estava perdido, sem definição, sem localização, sem ninguém. Já não tinha mais voz para gritar e o dia não acabava nunca, simplesmente continuava e continuava como um ciclo sem fim, eterno.
Passei por isso durante o que seria uma semana. Então o dia acabou, e de repente minhas mãos estavam lá de novo, presas em meus pulsos, eu estava sozinho novamente em meu quarto. Notei que um pequeno recorte em forma de circulo sangrava no meu peito. Meu sangue escorria gelado e viscoso.
Não tive tempo de reparar que a tortura tinha chego ao fim, quando quatro seres emergiram de toda aquela lama e começaram a me acusar. Começaram a me dar motivos para tudo que eu estava passando, começaram a me mostrar meus erros. Um dos seres dizia que eu errei como filho ao ser quem eu era, outro dizia que eu errei como humano ao desistir de ser humano, o terceiro falava sobre meus erros com a humanidade, e listava todas as coisas de mal que eu fazia, o quarto era a figura de minha mãe dizendo que eu era um simples erro. Então a dor voltou e eu comecei a sangrar através de meus olhos. O sangue não parava e não parecia querer parar. Ele apenas continuava a jorrar e a agonia só aumentava.
Abandonado, rejeitado, sangrando, descalço, sozinho e com frio. Essa agora era minha vida.

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